A lentidão da Justiça
portuguesa tornou‑se um daqueles fenómenos nacionais que já ninguém estranha,
como o atraso das obras públicas, a chuva no feriado ou a promessa
governamental que nasce velha. O país habituou‑se a viver com processos que se
arrastam como se o tempo fosse um recurso infinito, e com tribunais que
funcionam numa espécie de calendário alternativo, onde um ano equivale a três e
uma década é apenas um aquecimento. A
pergunta, porém, continua a ecoar: porque é que a Justiça portuguesa demora
tanto e quem ganha com isso? A resposta, como sempre, é menos
inocente do que parece.
A primeira camada do
problema é estrutural. Portugal construiu um sistema judicial que funciona como
um museu vivo da burocracia, onde cada papel tem direito a pedigree e cada
carimbo é tratado como um sacramento. A digitalização, anunciada com pompa,
acabou por ser uma espécie de maquilhagem tecnológica aplicada sobre práticas
do século XIX. O resultado é um
híbrido disfuncional com computadores que servem para imprimir documentos que
depois são assinados à mão, digitalizados novamente e enviados por email para
serem impressos outra vez. A Justiça portuguesa não é lenta
por acidente; é lenta por design, por hábito e por uma devoção quase religiosa
ao ritual administrativo.
Mas a lentidão não se
explica apenas pela arqueologia burocrática. Há também a questão da cultura
institucional, essa entidade nebulosa que ninguém assume mas todos praticam. A
Justiça portuguesa vive num estado de solenidade permanente, como se cada
decisão fosse um acto fundador da República. A consequência é previsível com prazos que se esticam,
despachos que se acumulam, audiências que se adiam, e um sistema que parece
acreditar que a pressa é inimiga da virtude. A lentidão
transforma‑se, assim, numa espécie de ética profissional, um sinal de
ponderação, de gravidade, de respeito pelo “tempo da Justiça”. O problema é que
esse tempo não coincide com o tempo da vida real.
A isto soma‑se a
crónica falta de meios, que funciona como desculpa oficial para todos os males.
Faltam funcionários, magistrados, peritos, salas e
sistemas informáticos que não colapsem ao primeiro clique. Falta
tudo, excepto relatórios a diagnosticar o que falta. A Justiça portuguesa tornou‑se especialista em produzir
diagnósticos que confirmam o óbvio de que o sistema está subfinanciado,
subdimensionado e subvalorizado. Mas, curiosamente, esta
escassez nunca impede a proliferação de comissões, grupos de trabalho e
reformas anunciadas com entusiasmo e esquecidas com igual rapidez.
Contudo, a lentidão não
é apenas um problema; é também um recurso. E aqui chegamos à parte mais incómoda da equação de quem
ganha com isto? A resposta é simples de ganham todos os que beneficiam da
opacidade, inércia e previsível imprevisibilidade do sistema. Ganha
quem tem interesse em adiar decisões, quem sabe que o tempo é um aliado
poderoso, quem percebe que um processo que dura anos é, na prática, uma forma
de absolvição provisória. Ganha quem tem recursos para prolongar litígios, para
recorrer indefinidamente, para transformar a morosidade em estratégia. Ganha
quem pode pagar advogados especializados em navegar o labirinto processual como
quem joga xadrez com o calendário.
E ganham também, ainda que ninguém o admita, certas instituições que vivem
confortavelmente instaladas na lentidão. A morosidade permite justificar
orçamentos, reclamar reforços, adiar reformas, manter estruturas que não fazem
sentido. A lentidão é, paradoxalmente, uma forma de estabilidade pois enquanto
tudo demora, nada muda. O sistema perpetua‑se porque a sua ineficiência funciona como mecanismo de
autodefesa.
Mas há um terceiro grupo de beneficiários, mais subtil e mais perigoso que
são os que lucram com a erosão da confiança pública. Uma
Justiça lenta é uma Justiça desacreditada, e uma Justiça desacreditada é
terreno fértil para discursos simplistas, soluções autoritárias e narrativas
que prometem eficiência instantânea. A lentidão, ao corroer a legitimidade das
instituições, abre espaço para quem pretende substituí‑las por modelos mais
expeditos, menos escrutinados e mais alinhados com interesses particulares. A
morosidade judicial não é apenas um problema técnico; é um problema político,
porque fragiliza o Estado de Direito e alimenta a ideia de que a Justiça é um
luxo para quem pode esperar.
A lentidão também serve
para mascarar desigualdades. Num
sistema onde o tempo é moeda, quem tem mais tempo, ou seja, mais recursos, compra
vantagem. Os cidadãos comuns, esses, vivem num universo paralelo da urgência, necessidade
e vida que não pode ficar suspensa durante anos. Para eles, a
lentidão não é estratégia; é punição. A Justiça portuguesa, ao demorar, cria
uma forma de desigualdade temporal que se traduz em desigualdade material. O
tempo, que deveria ser neutro, torna‑se instrumento de poder.
E, no entanto, apesar
de tudo isto, o país continua a tratar a lentidão judicial como uma fatalidade meteorológica.
Fala‑se dela com resignação, como se fosse uma característica genética da
nação. A verdade, porém, é
que a lentidão é uma escolha ou, pelo menos, a consequência de muitas escolhas
acumuladas. Escolhas políticas que adiaram reformas estruturais,
escolhas administrativas que privilegiaram o formalismo sobre a eficiência,
escolhas culturais que confundiram ponderação com imobilismo. A lentidão não
caiu do céu; foi construída, mantida e, em muitos casos, defendida.
O mais irónico é que a
lentidão judicial convive com uma retórica permanente de modernização. Todos os governos prometem agilizar, simplificar,
digitalizar e acelerar. Todos anunciam planos, plataformas, investimentos e
reformas. E todos acabam por produzir o mesmo resultado de mudanças cosméticas
que não alteram o essencial. A Justiça portuguesa é como uma
casa antiga onde se muda a cor das paredes mas nunca se mexe na canalização. O
exterior parece renovado, mas a água continua a pingar no mesmo sítio.
A lentidão também tem
uma dimensão simbólica. Num país onde o poder político e económico se habituou
a funcionar com margens de ambiguidade, a Justiça lenta é conveniente. Permite gerir crises, adiar decisões difíceis e evitar
confrontos. Uma Justiça rápida seria disruptiva, imprevisível e potencialmente
incómoda. A lentidão, pelo contrário, oferece tempo para negociar, para
recalcular e para esperar que o vento mude. A morosidade judicial
é, assim, uma espécie de almofada institucional que suaviza impactos e protege
interesses instalados.
Mas talvez o aspecto mais perturbador seja este de que a lentidão tornou‑se
normal. O
país já não se indigna com processos que duram vinte anos, com investigações
que se arrastam até prescreverem, com decisões que chegam tarde demais para
terem qualquer efeito prático. A normalização da lentidão é o verdadeiro
triunfo do sistema, porque transforma um problema estrutural numa paisagem
inevitável. Quando a anomalia se torna rotina, deixa de haver urgência em
corrigi‑la.
E, no entanto, a
lentidão tem custos reais. Custos económicos, porque a incerteza afasta
investimento e paralisa decisões. Custos
sociais, porque a demora destrói vidas, carreiras ereputações. Custos
democráticos, porque mina a confiança nas instituições e alimenta o cinismo
colectivo. A lentidão não é apenas irritante; é corrosiva. E, como todas as formas de corrosão, actua lentamente,
silenciosamente, até que um dia se descobre que a estrutura não aguenta.
A pergunta final impõe‑se:
é possível mudar? Em teoria, sim. Em prática, depende de uma vontade política
que raramente se manifesta e de uma coragem institucional que quase nunca
aparece. Exigiria mexer em
interesses instalados, enfrentar resistências internas e romper com tradições
que muitos consideram intocáveis. Exigiria, sobretudo,
reconhecer que a lentidão não é um atributo nobre da Justiça, mas uma falha
grave do Estado.
Enquanto isso não acontecer, a Justiça portuguesa continuará a avançar ao
ritmo de um caracol filosófico, contemplativo, sereno e indiferente à pressa do
mundo. Continuará a ser um sistema onde o tempo é elástico, onde a urgência é relative
e onde a demora é regra. E continuará a beneficiar quem sabe transformar a
lentidão em vantagem e a prejudicar quem precisa que a Justiça seja mais do que
um conceito abstracto.
No fim, a resposta à pergunta inicial é simples: a Justiça portuguesa
demora porque pode e porque há quem ganhe com isso. O
resto são detalhes, relatórios e discursos que se repetem enquanto o país
espera, pacientemente, por decisões que chegam sempre tarde demais.
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