A lentidão da Justiça portuguesa não é uma metáfora poética nem uma
hipérbole retórica; é um facto empírico, mensurável e, pior ainda, observável
em casos concretos que se arrastam durante tantos anos que chegam ao julgamento
com rugas, artrite e, em alguns episódios particularmente grotescos, com os
principais intervenientes falecidos. A Justiça portuguesa
não envelhece apenas processos; envelhece também a paciência dos cidadãos, a
credibilidade das instituições e a própria ideia de Estado de direito.
Para compreender esta
morosidade estrutural, convém olhar para episódios reais que ilustram a
dimensão do problema. Não são excepções; são sintomas.
1.
O Caso Freeport: o processo que atravessou governos, crises e modas
O processo Freeport
tornou‑se um símbolo quase literário da lentidão judicial. Iniciado em 2005,
investigado durante anos, atravessou mudanças de procuradores, equipas, prioridades
e até de clima político. Quando
finalmente se aproximou de conclusões, ninguém se lembrava do que estava em
causa. O
país assistiu a um desfile de perícias, contra‑perícias, cartas rogatórias e
relatórios que pareciam multiplicar‑se como gremlins.
O mais irónico é que, no final, o processo terminou sem condenações
relevantes, mas com uma certeza; a Justiça portuguesa é capaz de transformar um
caso mediático num folhetim interminável, onde a narrativa se perde no
labirinto processual. O tempo, esse juiz implacável, acabou
por decidir mais do que os tribunais.
2.
O Caso Casa Pia: quando a Justiça demora tanto que quase prescreve a memória
O processo Casa Pia é
outro monumento à morosidade. Iniciado em 2002, só teve sentença em 2010. Oito
anos para julgar crimes gravíssimos, com dezenas de testemunhas, milhares de
páginas e uma pressão mediática colossal. O julgamento foi tão longo que alguns
intervenientes mudaram de profissão, de residência e até de vida enquanto
esperavam.
A lentidão não se deveu
apenas à complexidade do caso, mas também à incapacidade estrutural de gerir
processos volumosos. A Justiça portuguesa funciona bem com litígios simples;
quando o processo exige organização, meios e celeridade, o sistema entra em
colapso. O caso Casa Pia mostrou que a Justiça pode ser tão lenta que quase
compromete a própria noção de justiça.
3.
O Caso BES/GES: a novela financeira que ameaça durar mais que a dívida pública
O colapso do Banco
Espírito Santo em 2014 gerou um dos maiores processos económicos da história
portuguesa. Em 2024, dez anos depois, o julgamento ainda avançava a passo de
caracol. O processo tem milhares de páginas, dezenas de arguidos, perícias
complexas e uma estrutura judicial que não foi desenhada para lidar com
megaprocessos.
O resultado é previsível com audiências adiadas, testemunhas que não se
lembram de nada, advogados que mudam de estratégia como quem muda de gravata e
um país inteiro que observa, com resignação, a Justiça a tropeçar nos seus
próprios papéis. O caso BES é a prova viva de que a Justiça portuguesa não está
preparada para crimes económicos de grande escala e que a lentidão beneficia
sempre os mesmos.
4.
O Caso Tancos: quando até o roubo de armas precisa de um calendário geológico
O assalto aos paióis de
Tancos ocorreu em 2017. O julgamento só começou em 2020 e arrastou‑se com
adiamentos sucessivos, mudanças de juízes e episódios dignos de uma série
televisiva. O caso envolvia militares, políticos, encobrimentos e uma
investigação que parecia um puzzle montado às cegas.
A lentidão do processo
não se deveu apenas à complexidade factual, mas também à incapacidade de
coordenação entre instituições. A Justiça portuguesa funciona como um conjunto
de ilhas administrativas que comunicam por garrafa ao mar. Quando um caso exige
articulação rápida, o sistema simplesmente não consegue.
5.
O Caso Marquês: o processo que se tornou um museu da morosidade
Nenhuma análise da
lentidão judicial estaria completa sem o Caso Marquês. Iniciado em 2014,
transformou‑se num labirinto processual com milhares de páginas, dezenas de
arguidos, recursos intermináveis e uma instrução que durou mais que muitos
cursos universitários.
O caso tornou‑se tão
longo que o país começou a discutir não os factos, mas a própria duração do
processo. A Justiça portuguesa
conseguiu o impensável que foi transformar um dos maiores escândalos políticos
e financeiros da democracia num debate sobre prazos, nulidades e prescrições. A
lentidão tornou‑se protagonista.
6.
O Caso dos Incêndios de Pedrógão Grande: quando a tragédia espera pela Justiça
O incêndio de Pedrógão
Grande, em 2017, causou 66 mortos e mais de 250 feridos. O processo judicial,
porém, avançou com a lentidão habitual. Entre perícias, relatórios
contraditórios, disputas técnicas e recursos, o julgamento só começou anos
depois. Para as famílias das vítimas, a morosidade judicial acrescentou
sofrimento ao sofrimento.
Este caso mostra que a
lentidão não é apenas um problema técnico; é um problema humano. A Justiça que
tarda é uma Justiça que falha.
Bibliografia
Almeida,
João Pedro. A Justiça em Portugal: Diagnóstico e Propostas de Reforma. Lisboa:
Fundação Francisco Manuel dos Santos, 2020.
Costa,
Susana. Sistema Judicial Português: Estruturas, Problemas e Desafios. Coimbra:
Almedina, 2019.
Guedes,
Armando. Justiça, Democracia e Estado de Direito. Lisboa: ICS, 2018.
Marques,
Maria João Antunes. Processo Penal Português: Entre a Tradição e a Reforma.
Coimbra: Coimbra Editora, 2017.
Santos,
Boaventura de Sousa. Para uma Revolução Democrática da Justiça. Porto: Afrontamento,
2014.
Teixeira,
Rui. Morosidade Judicial e Eficiência dos Tribunais. Lisboa: Universidade Nova
de Lisboa, 2021.
Vasconcelos,
Pedro. Burocracia e Cultura Jurídica em Portugal. Lisboa: Tinta‑da‑China, 2022.
Tribunal
de Contas. Relatório sobre a Morosidade Processual nos Tribunais Portugueses.
Lisboa: TdC, 2021.
Ministério
da Justiça. Estatísticas da Justiça 2000–2023. Lisboa: DGPJ, 2024.
Comissão
Europeia. EU Justice Scoreboard 2023. Bruxelas: Comissão Europeia, 2023.

Sem comentários:
Enviar um comentário